Maria Luiza Dias
A literatura sobre a terapia de casal e família mostra que esta linha de atuação se constituiu como uma especialidade técnica na década de 50 na Europa e Estados Unidos. Até então, esta modalidade de atendimento terapêutico não era muito difundida, embora alguns profissionais já chamassem eventualmente o casal ou a família para sessões conjuntas. Após a II Guerra, houve uma explosão de publicações sobre o tema. Foram abertos muitos setores de atendimento familiar ligados às universidades, bem como clínicas especializadas, quem sabe para atender ao que o médico e psicanalista inglês Henry Dicks (1980) chamou de nova "epidemia social", referindo-se ao que se acreditou ser a eclosão de conflitos conjugais e familiares decorrentes da experiência da guerra
Pelo conhecimento acumulado até o presente, os primeiros terapeutas de casal teriam surgido no Brasil por volta da década de 70, muitos deles oriundos de especializações que tinham realizado no exterior na década anterior, uma vez que não havia cursos de formação no país. As transformações no plano das idéias e nas formas de pensar os relacionamentos, que tiveram lugar nos Estados Unidos e na Europa do pós-guerra, foram assimiladas pelos terapeutas brasileiros, quando parece ter sido "emprestado" do Primeiro Mundo as noções de casal "sadio" e de casal "conflitivo". Passou-se a falar, por exemplo, em "pactos inconscientes", "lealdades invisíveis", "agenda oculta" da família, "padrões disfuncionais" nas relações familiares, "família como um sistema". Houve uma mudança de paradigma na abordagem de grupo que emergira após a II Guerra: os sintomas psicológicos passaram a ser vistos como resultado da natureza dos vínculos estabelecidos entre as pessoas, como uma produção conivente e conjunta, em oposição à perspectiva de uma etiologia puramente individual.
As noções constituídas por essa nova ideologia herdeira da II Guerra vêm compor todo um novo modo de pensar o casamento (e sua dissolução) e a família, caminhando ao lado do movimento da Anti-psiquiatria, que rejeita a visão de que a "doença mental" esteja isolada do contexto onde é gerada, compreendendo-a como uma expressão grupal. Não podemos esquecer que é também na década de 70 que o movimento contra a reclusão de pacientes em manicômios está em seu auge, com Franco Basaglia (1985) fechando os hospitais psiquiátricos na Itália. Deste modo, os conflitos conjugais e familiares antes entendidos como causados por um membro "problemático" do grupo, passaram a ser vistos como sintomas produzidos no âmbito das relações entre a díade ou no grupo familiar.
Neste contexto, à semelhança da loucura, os conflitos familiares não são mais tributados à patologia daquele que é portador de uma queixa ou de um desajuste; ao contrário, passam a ser vistos como produtos de padrões de relacionamento que são patogênicos. Nesta linha de raciocínio, o sintoma do paciente identificado é concebido como um processo que envolve toda a família e deve ser compreendido à luz da rede de relações a qual pertence o indivíduo. Daí advém a necessidade de incluir o grupo familiar no atendimento terapêutico como um recurso técnico que permite focalizar as ansiedades básicas compartilhadas por seus componentes, ajudando o grupo a elaborá-las em vez de se evadirem de vivê-las.
Pensemos a psicoterapia como um recurso. Muitas pessoas imaginam, quando se unem a alguém, que as questões de relacionamento amoroso estão resolvidas. Não cogitam, pelo menos naquele momento, que uma relação amorosa necessitará ser recriada com ajustes e rearranjos ao longo das mudanças na vida. Do mesmo modo, quando é o caso de uma separação, as duas pessoas envolvidas freqüentemente não cogitam que será preciso resolver os problemas de relacionamento e comunicação, mesmo para se separarem - sobretudo se continuarão tendo que se relacionar para manter a parceria no que concerne aos filhos. A relação conjugal morre, mas o exercício da paternidade não poderá morrer junto, sem que daí decorram sérias conseqüências.
Cabe lembrar que, quando o casal opta pela terapia conjunta, é importante entender que ela não estará a serviço nem de unir e nem de separar os parceiros, como às vezes se imagina no senso comum. Muito menos de servir de instrumento a uma das pessoas para a reforma da outra. Ela será um espaço de atualização das experiências vividas no passado do casal e de reflexão sobre como elas se reproduzem na estrutura do vínculo conjugal.
A psicoterapia de casal ou de família pode propiciar a compreensão das emoções em jogo, alargando a consciência sobre as estruturas vinculares dos elementos do grupo familiar. E mesmo quando é o caso de ocorrer uma separação ou a constituição de uma nova família, principalmente incluindo filhos, a psicoterapia pode ser muito útil como um espaço terapêutico específico para pensar esses novos universos, prevenindo a formação de sintomas que poderiam ser expressos por algum dos membros do grupo familiar.
Referências Bibliográficas:
O modo como se compreende a Orientação Vocacional é diverso. O próprio termo orientar é problemático. No dicionário, quer dizer "encaminhar, guiar, indicar o rumo a". Como se, de fato, fosse possível aconselhar um caminho ao orientando. Por muitos motivos, em certas ocasiões, pode ser interessante utilizar a expressão Orientação Profissional, e não Orientação Vocacional, uma vez que o conceito de vocação carrega sempre a idéia de que existe um dom com o qual nascemos e do qual não podemos nos evadir. Ao contrário, acredito que nossos interesses são fruto da nossa relação psicodinâmica com as nossas experiências e que, por isso, poderemos desenvolver habilidades que atualmente não possuímos. Felizmente, uma leitura puramente biológica foi sendo substituída ao longo dos anos por uma visão de natureza cultural e psicológica.
Com as teorias de Rodolfo Bohoslavsky e Denis Pelletier, outras perspectivas nasceram. Sabe-se hoje que indivíduo e sociedade estão em constante transformação, de forma que o sujeito em orientação passou a ser focalizado dentro de um continuum de desenvolvimento. Essas novas tendências ampliaram o universo da escolha profissional para além da busca de informações e do ajuste ao dom. O indivíduo passou a ser visto como parte de um conjunto sistêmico, em que variados aspectos mantêm-se inter-relacionados: indivíduo x desenvolvimento intra-psíquico x realidade e imaginário familiar x inserção de classe.
Nesta direção, o papel do orientador é auxiliar quem o procura a perceber a rede de significações com a qual opera, a compreender a construção que se encontra subjacente às suas escolhas, incluindo os conflitos e ansiedades ocultos em suas preferências ou rejeições. O orientador transforma-se num coadjuvante, facilitador ou co-construtor desta estrutura simbólica, propiciando experiências e identificando elementos que o convidam à reflexão sobre o futuro.
Essa é a principal e original contribuição, uma vez que o orientando geralmente é capaz de investigar a realidade ocupacional e obter uma visão sobre seus interesses e aptidões. A maioria dos estudantes procura a Orientação Profissional já com uma noção sobre o que querem fazer. Os testes apenas confirmam essas suspeitas. Um trabalho alicerçado somente em testagem acaba por não redundar em grande ajuda. Um teste de inteligência, por exemplo, é desnecessário, uma vez que o estudante já possui um certo nível de escolaridade. Saber o grau de QI em um grupo de adolescentes, poderia servir apenas para promover a disputa entre eles.
Apesar disso, ainda existem entidades que trabalham exclusivamente com o modelo psicométrico, no qual o estudante recebe um laudo final, acompanhado de um resultado de avaliação de aptidão e/ou de personalidade, repleto de termos técnicos. Desperdiça-se uma oportunidade de construir com o estudante uma visão mais ampliada sobre suas escolhas, não-escolhas, seu modo de operar no mundo, seus recursos e limites e o modo como se vincula com seu futuro e, até mesmo, sobre as influências familiares.
Cabe lembrar que a escolha profissional, influenciada pelos dilemas familiares, poderá, em alguns casos, transformar-se em sintoma de grupo - expressão de ansiedades e conflitos compartilhados. A inclusão dos pais (membros da família) em entrevistas com o estudante ou de atividades que promovam o pensar sobre este universo, podem auxiliar o enfoque da Orientação Profissional. Quando o trabalho é direcionado à revisão de carreira de um adulto, os aspectos de influência familiar podem ser investigados através das imagens internalizadas, sobre as expectativas de sua família.
O momento da escolha profissional é muito importante. Embora sempre se possa alterar o rumo, aquilo que o indivíduo escolher se refletirá na totalidade de sua vida. O programa de Orientação Profissional é um espaço importante de reflexão, pela amplitude e extensão que um direcionamento para uma carreira pode ter. Considero que esse trabalho envolve um conjunto de representações mentais com o qual o estudante concebe o seu eu e o mundo ao seu redor - ou seja, com sua própria visão de mundo -, ajudando-o a ressignificar sua realidade e a planejar uma estratégia para o futuro.
Atrás de uma escolha profissional encontra-se toda uma dinâmica sócio-organo-psicológica que envolve a relação que o indivíduo estabelece com seu passado-presente-futuro, em seus aspectos aparentes e latentes. Nesta perspectiva, o que se escolhe e o que se considera ou não ao escolher constitui o eixo da temática a ser focada na Orientação Profissional. A Orientação Profissional deve voltar-se a este referencial: às fantasias e desejos do sujeito, à sua operacionalidade e às suas implicações na continuidade de sua vida.
Referências Bibliográficas: