"Ser poeta não é uma ambição minha. É a minha maneira de estar sozinho", dizia Alberto Caieiro - heterônimo de Fernando Pessoa. Estar sozinho, pensar, andar, aprender, lembrar e esquecer, estar feliz ou triste e ter comportamento adequado ou não, são questões da Neurociência - que estuda o funcionamento do sistema nervoso, especialmente o do cérebro em relação ao comportamento.
A palavra "neurociência" surgiu em 1970 quando foi criada a Sociedade de Neurociências. O estudo do cérebro, entretanto, é tão antigo como a própria ciência. A maneira como o cérebro funciona intriga e instiga a humanidade há mais de sete mil anos. Há relatos curiosos. Na tentativa de curar o doente, perfurava-se o crânio - processo chamado de trepanação. Registros de cerca de cinco mil anos, do antigo Egito, mostram que já eram conhecidos muitos sintomas do dano cerebral. Porém, existia a crença de que o coração era a sede do espírito e o depositário da memória.
O mais interessante, segundo o psicólogo Luiz César Vicinança, é que muitos estudos apontavam para conclusões corretas, mas baseavam-se em raciocínios equivocados. Em 130 d.C., Galeno acreditava que o cérebro tinha duas partes: a da frente, mais macia, que administrava as emoções e sensações; e a de traz, o cerebelo, de consistência mais firme que comandava os músculos. "Hoje se sabe que o cerebelo está ligado ao equilíbrio, à coordenação de movimentos e não é mais rígido porque mexe com os músculos. Ou seja, há uma relação com o que já se sabia".
A revolução das neurociências só pôde acontecer quando os cientistas perceberam que a melhor abordagem para o entendimento da função do encéfalo vinha da inter-disciplinariedade, a combinação das abordagens tradicionais para produzir uma nova perspectiva.
A tarefa da ciência neural hoje é a de fornecer explicações do comportamento em termos da atividade cerebral, de explicar como milhões de células neurais individuais, no cérebro, atuam para produzir o comportamento e como, por sua vez, elas são influenciadas pelo ambiente
A partir de 1990, houve grande avanço nos estudos sobre o cérebro. O desenvolvimento tecnológico, a ressonância magnética, a tomografia e outros exames, tornaram possível estudá-lo melhor. Assim, a Neuropsicologia - um dos ramos da Neurociência - também foi contemplada. Segundo o neurologista Ricardo Nitrini (USP), a Neuropsicologia é o campo de conhecimento que trata da relação entre cognição e comportamento e a atividade do sistema nervoso em condições normais e patológicas.
De natureza multidisciplinar, a Neuropsicologia permite a elaboração de um estudo prático do cérebro, efetivando diagnósticos tópicos precoces e precisos das patologias e de alterações das funções cerebrais superiores. O psicólogo Vicinança (curso à pág.16) diz que ao se especializar ampliou sua visão na relação cérebro e comportamento. "O processo de aprendizagem sofre influência da inter-relação do homem e o meio ambiente", conclui.