O que é a Psicopedagogia? Esta é uma pergunta que há muitos anos apresento para alunos e profissionais, pois é preciso construí-la e elucidá-la, como qualquer outra área do conhecimento. A Psicopedagogia não é, como sugere o seu nome, a simples junção da Psicologia com a Pedagogia, ela pode trabalhar e recorrer às contribuições dessas duas disciplinas, mas não é só isso, ou melhor, não é bem isso. Muitas vezes, o “psico” refere-se mais às contribuições da Psicanálise do que propriamente às da Psicologia.
Fernández (1994 a) apresenta esse questionamento no artigo “El porqué, para qué y como, de la insistência de la pregunta: ‘qué es la Psicopedagogía’.” A autora propõe que, ao invés de anular ou desqualificar a pergunta como indicadora de imaturidade, pode-se trabalhar com ela, pode-se usá-la em um espaço transicional, lúdico, de criatividade, que permita questioná-la.
A Psicopedagogia trata das questões sobre o aprender e o aprender implica o perguntar e o perguntar-se. Para aprender é preciso abrir espaço para o perguntar, articulando três instâncias: desconhecimento, conhecimento e desejo de conhecer. A Psicopedagogia, de forma saudável, abre-se ao perguntar sobre si mesma e constrói seu próprio aprender, colocando em jogo a função positiva da ignorância, os conhecimentos já adquiridos e o desejo de continuar crescendo.
Desde que o homem existe, ele se desenvolve e aprende, assim, pode-se pensar a história da Psicopedagogia a partir de várias origens. Ao recorrermos à Mitologia encontramos no Mito da Árvore da Sabedoria (Fernández, 1994 b) uma ferramenta para a leitura psicopedagógica. A autora vê no mito os elementos de um dispositivo de interpretação psicopedagógica, analisando as intersecções entre sexualidade e conhecimento. O mito conta que tudo no Paraíso era permitido, menos comer do fruto da árvore do conhecimento, mas na árvore havia uma serpente (professora) que ofereceu à mulher o fruto e ela aceitou. Ao comer sentiu um sabor diferente e a necessidade de continuar comendo, abriu seus olhos e podia, a partir de então, buscar a liberdade, por meio do conhecimento.
Ao se buscar uma fonte histórica, encontra-se o nascimento da Psicopedagogia na França, em 1940, sendo conhecida como “pedagogia curativa” (Mery, 1983). A partir dos trabalhos de Theodore Heller, considerado o pai da Psicopedagogia, começa o interesse pelos problemas escolares, que afetam a personalidade da criança.
No início de minha carreira como psicóloga clínica, ao me deparar com crianças e adolescentes com dificuldades de aprendizagem escolar, construí um percurso pessoal de busca de autores e de recursos que pudessem ajudar-me a compreender o que era aprender e por que algumas pessoas não aprendiam. O roteiro de leitura deu origem a um curso, estabelecendo as bases para começar a conhecer e trabalhar com Psicopedagogia. Há quase 20 anos ministro, no Instituto Pieron de Psicologia, o curso “Psicopedagogia: teoria e prática ‘Construindo um percurso’”. Considero-o um curso básico e nele apresento os conceitos fundamentais da Psicopedagogia e como usá-los na prática, em nós mesmos (os profissionais), e nas pessoas que vamos atender.
As questões relacionadas à aprendizagem e aos problemas de aprendizagem intensificaram-se e minha busca por autores e soluções relacionadas ao tema continuou, nascendo um novo curso que batizei de “Psicopedagogia: teoria e prática ‘Em busca da terra do saber’”. Esse nome tem muitas razões, conscientes e inconscientes, uma delas é a eterna curiosidade de querer saber onde se localiza a experiência de aprender, em que lugares hospedam-se os saberes e os conhecimentos, que podem sair e retornar enriquecidos, como no conto “A menina e o pássaro encantado”, de Ruben Alves. Uma outra razão tem a ver com o processo, pois estamos sempre em devir, em busca de algo ou de alguém, e é isso que nos dá a possibilidade de nos reunirmos em grupos, em cursos, em relações. Outra razão está em conquistar novas terras, que sejam espaços onde se possa voltar a aprender a “ser”, simplesmente ser humano, menos tecnológico, menos medicado, menos artificial e menos violento.
O novo curso traz reflexões importantes de minhas pesquisas e estudos atuais. A primeira contribuição vem do meu diálogo mais acentuado com a Clínica Contemporânea, pois acredito que nela está assentada a maioria das questões relacionadas à aprendizagem hoje, tais como a dificuldade para ler, o problema da atenção e a hiperatividade. A segunda vem de minha compreensão do desenvolvimento humano por meio de uma abordagem ontológica. A terceira vem da constatação de que não dá para considerar que o problema de aprendizagem esteja só na pessoa que não aprende, trata-se de uma questão que envolve não só a pessoa e sua família, mas principalmente, a escola em que estuda e a sociedade a que pertence.
O curso traz, também, as concepções sempre inovadoras da Psicopedagogia Clínica de Fernández, principalmente os conceitos de modalidade de aprendizagem e de ensino e autoria de pensamento, bem como as concepções das teorias de Winnicott, como a do desenvolvimento emocional primitivo (importância do meio ambiente facilitador) e a dos Objetos e Fenômenos transicionais.
Acredito que a realidade da “Clínica da Aprendizagem” aponta para a adoção de uma abordagem mais voltada para o ser e menos para a técnica e foi o que considerei ao montar o curso. O ser humano aprende que a realidade é cada vez mais violenta e que são escassas as perspectivas de estudo, trabalho e moradia. Safra (2006 a) afirma que o que é mais trágico para o ser humano, hoje em dia, “é o fato de ele perder a possibilidade de ter esperança e de projetar uma utopia”, acredito que esse é um dos pontos que precisamos refletir na Clínica da aprendizagem: o lugar da esperança e da utopia para aprender. Um dos efeitos disso é fazer com que a vida pareça não ter um sentido e a saída encontrada seja a descrença absoluta, como defesa para continuar a estar no mundo. E é aí que o “psicólogo-filósofo-psicopedagogo” usa as sábias palavras de Safra (2006 b), para refletir sobre as questões contemporâneas:
“Ser clínico é estar aberto ao novo, em reflexão crítica sobre os problemas de seu tempo que afetam a condição humana”.
E também as sábias palavras de Fernández (2001):
“A Psicopedagogia Clínica comprova que a capacidade de pensar e aprender, condições humanas que nos permitem a originalidade, a diferença, o posicionamento como autores de nossa história, ainda podem subsistir nas situações educativas, sociais, econômicas e orgânicas mais desfavoráveis”.
Concordo com Safra, pois temos que estar atentos aos problemas de nosso tempo, principalmente os que afetam a condição humana, estando entre eles o fracasso dos modelos educacionais impostos à sociedade brasileira como um todo. Tais modelos, importados de outras realidades, criam indivíduos que não aprendem, principalmente a ler, o que já os tira da condição humana de leitor, e isso me convida a pensar.
Encontro nas palavras de Fernández uma possibilidade para o devir, pois se constata que o ser humano vive um momento de vida difícil, em que estão desfavorecidos os aspectos educacionais, sociais, econômicos e até os orgânicos, mas, mesmo assim, ainda podemos contar com nossa capacidade de pensar e aprender, desde que estejamos humanizados, e isso me convida a agir.
O convite a pensar e agir é fortalecido pela leitura atenta dos escritos de Patto (2005), que com indignação apontam para o fracasso do ensino, para a ruína da escola contemporânea que, longe de ser o lugar de aquisição de conhecimentos e de capacidade de refletir, forma alunos que não sabem ler, escrever e realizar as quatro técnicas operatórias. E é pensando nessa questão da educação de todos, e da minha própria educação, que encerro este texto com as palavras de Patto, dirigidas aos psicólogos, mas que acredito sirvam para todas as pessoas que cuidam da educação e da constituição de pessoas:
“Para serem críticos, precisam aproximar-se da Filosofia, transitar pelo campo das artes e da literatura e romper as barreiras que os separam das demais ciências humanas. Sem isso, não há esperança, e passaremos para a história como uma das práticas de submetimento mais eficientes em ação no século XX”.
Apresento e compartilho das idéias de autores como Fernández, Patto e Safra, que descrevem o mal estar contemporâneo e a dor que dele advém: a dor de não ser, de não aprender, de não ter. Denunciam e, ao mesmo tempo, refletem e indicam alternativas e possibilidades, que não estão nos livros, mas nas relações humanas, sejam elas as de psicoterapeuta /paciente, professor /aluno, pais / filhos, empregador / empregado, indivíduos / sociedades, entre tantas outras.
Assim, o espaço a ser criado pelo curso “Em busca da terra do saber” terá como proposta o desdobramento para aquilo que importa para se pensar efetivamente a educação. Uma educação que possa ajudar a constituir um ser, que é autor de seu pensamento e que pode refletir sobre as questões humanas, a partir do pensamento de outros e do seu próprio. Um ser, assentado na herança de sua cultura, que pode passear livremente pelos diferentes tempos e campos do existir humano, sejam eles do passado ou do presente, das artes ou das ciências.ALVES, R. A menina e o pássaro encantado. São Paulo: Edições Loyola, 2004.
FERNÁNDEZ, A. A mulher escondida na professora: uma leitura psicopedagógica do ser mulher, da corporalidade e da aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1994 b.
----- El porqué, para qué y como, de la insistência de la pregunta: “qué es la Psicopedagogía”. In Revista E.Psi.B.A. nº zero. Buenos Aires: Octubre, 1994 a.
----- Os idiomas do aprendente: análise de modalidades ensinantes em famílias, escolas e meios de comunicação. Porto Alegre: Artmed Editora, 2001.
MERY, J. Pedagogia curativa escolar e Psicanálise. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983.
PATTO, M.H.S. Exercícios de indignação: escritos de educação e psicologia. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2005.
SAFRA, G. A poética da clínica contemporânea. Aparecida, SP: Idéias & Letras, 2004.
----- Desvelando a memória do humano: o brincar, o narrar, o corpo, o sagrado, o silêncio. São Paulo: Edições Sobornost, 2006 a.
----- www.sobornost.com.br 2006 b.
BEATRIZ P. MACHADO MAZZOLINI: psicóloga (CRP 06/4576), mestrado em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano (IPUSP) e especialização nas áreas de Ludo-Terapia, Psicomotricidade, Psicopedagogia e Clínica Contemporânea. Docente de cursos de especialização, gradução e pós-graduação no Instituto Pieron, na Universidade Paulista e na Universidade Ibirapuera. Coordena o EPSIBA em São Paulo. Supervisora na formação em sócio-psicomotricidade Ramain-Thiers. Trabalha na área clínica atendendo crianças, adolescentes e adultos e supervisionando atendimentos. Tem interesse nas áreas da Psicologia Clínica, Psicologia do Desenvolvimento Humano e Aprendizagem, Psicanálise e Psicopedagogia, dentro de um enfoque ontológico..