Há 30 anos sou psicólogo e antes de me formar já trabalhava com organizações. Hoje, além de ser diretor do Pieron, onde circulam cerca de 1.500 psicólogos e profissionais de Recursos Humanos anualmente, sou também professor universitário. A estrutura curricular dos cursos de Psicologia desde o meu tempo possui três áreas básicas: clínica, educação e organização, as quais são conduzidas até hoje de maneira “excludente”. Nunca compreendi o motivo.
A formação do psicólogo permanece reduzida e ensimesmada. Precisamos hoje de uma Psicologia que olhe para uma espécie de “Universidade da Pessoa”. Os motivos são muitos. Um mundo que se torna cada vez mais complexo, em função da globalização, busca de inclusão, convívio com culturas múltiplas, impacto econômico de grande escala, carreiras autodeterminadas, luta acirrada entre valores profundos, tecnologia fácil e livre acesso à informação. Por outro lado, um governo que quer suprir todas as funções do indivíduo, correndo o risco de rebaixar a auto-estima, limitar a vontade e o espírito empreendedor.
No atual contexto do mundo, Clínica, Educação e Trabalho integram-se, conforme a figura 1. As interfaces – apenas a título de ilustração – demonstram um campo vasto para a atuação do profissional da Psicologia. Tomando-se a perspectiva pelo ângulo da Psicologia nas organizações, as interfaces mostram demandas das áreas integradas. De fato, o contexto da Universidade da Pessoa é mais amplo do que o das disciplinas da Psicologia em particular. Uma visão transdisciplinar e interdisciplinar (e cooperativa) faz-se necessária. O mundo do trabalho hoje requer habilidades e demandas do ser humano muito além do que até então vínhamos concebendo.

Uma formação centrada no conceito da Universidade da Pessoa prepararia o profissional para uma ação mais do que especializada. A especialização estaria na ‘questão humana' em si, com um foco mais universal, o qual incluiria inúmeros conhecimentos entrelaçados: sobre como as pessoas aprendem, do que sabem de si mesmas e de suas motivações, reações e inconsciências; sobre como tudo se manifesta nas relações sociais, de liderança, de coordenação, de política.
Se continuarmos focando no profissional especializado em uma das áreas, estaremos limitando o crescimento dele. Não creio que o ambiente organizacional espere uma atuação de um ‘profissional de Psicologia Organizacional'. Espera-se, sim, um profissional de Ciências Humanas capaz de adaptar seus conhecimentos a certas demandas contextuais, sem perder o foco de sua missão, que é a de prover condições de saúde nas relações. Ora, isso demanda conhecimentos amplos e múltiplos. Conhecer Freud, Piaget, Maslow, Drucker. Entender sobre capacidade humana, empreendedorismo, “grupalidade”, desejos e desempenho, conflitos pessoais e uso do poder – tudo é importante. O profissional formado por uma Universidade da Pessoa buscará muito mais integrar conhecimentos e saberá que sua competência pode se estender para além dos limites de um campo específico.
No meu ponto de vista, as Ciências humanas sempre estiveram à parte do desenvolvimento do conhecimento em gestão ou administração. Como se os conceitos e propostas desenvolvidos pelos teóricos da Psicologia não ‘coubessem' no ambiente organizacional – ambiente por sinal visto pelas faculdades como ‘não digno' da ação do psicólogo. Ora! Nos países desenvolvidos, mais de 90% do trabalho hoje está relacionado a alguma organização.
Com um mundo cada vez mais ‘conectado' e a tecnologia cada vez mais onipresente, o trabalho se estende e invade nossas casas, nos ocupando muito além das oito horas formalmente dedicadas. Os conceitos e valores de gestão também adentram nossa vida particular: na educação dos filhos aplicamos ‘avaliação de desempenho'; relações humanas são consideradas em termos de ‘custo-benefício'; ter ou não ter filhos é uma questão de ‘análise econômica'; casais permanecem juntos por ser ‘economicamente viável'. As regras ‘econômicas' impregnam nossas vidas. Provavelmente nos consultórios psicológicos, as questões sobre trabalho, relações de trabalho, projetos pessoais e conflitos, estejam muito ligadas a sofrimentos e desejos oriundos do contexto organizacional.
A Educação – no sentido mais amplo – ensina para a ‘certeza' mais do que para a ‘incerteza'. Nosso modelo educacional ‘avalia' as pessoas pelo quanto são capazes de mostrar o que ‘aprenderam' (ou decoraram) nas aulas, e não pelo que seriam capazes, o quão criativo são, como reagiriam diante do desconhecido. Além, é claro, de questões básicas de alinhamento das disciplinas com o mundo real, do trabalho, da vida demandante, de performance. Ora, a Educação tem tudo a ver com a clínica psicológica. Como nossos professores afetam a auto-estima dos estudantes?
Num mundo tão amplo e integrado, a formação do psicólogo deve transcender as disciplinas. E provavelmente todas as outras disciplinas devam transcender as suas próprias. É uma necessidade real.
Por Marcos Luiz Bruno
Diretor - Instituto Pieron
marcosbruno@pieron.com.br