Há vinte anos, o psicólogo americano, Meir Ben-Hur foi convidado a participar de um treinamento em Israel, comandado por Reuven Feuerstein, cuja crença na modificabilidade cognitiva o fez desenvolver o método Programa de Enriquecimento Instrumental (PEI). Depois deste evento, Ben Hur nunca mais parou, fez doutorado em psicologia na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, e dedicou sua vida na aplicação do método de Feuerstein por todo o mundo. Em setembro último, esteve no Brasil, a convite do Instituto Pieron, para formar a primeira turma de mediadores, quando concedeu esta entrevista exclusiva.
Há quanto tempo o senhor conhece doutor Reuven Feuerstein? Como soube de seu método?
B-Hur - Na década de 70, houve um grande estudo piloto em Israel, patrocinado pelo ministério da Inteligência. Feuerstein foi o diretor deste treinamento e seu Programa foi o ponto principal do evento. Na época, metade do tempo eu era conselheiro de estudantes e a outra, estudante. Eles estavam procurando um professor para participar deste treinamento e me descobriram.
Desde quando o PEI é aplicado nos Estados Unidos?
B-Hur - Não sei precisar o ano, mas foi no final da década de 70. Foi trazido provavelmente pela primeira vez para os Estados Unidos por Francis Link. E tem evoluído constantemente desde então.
Quantas organizações e pessoas já passaram pelo Programa? Nos Estados Unidos, quantos mediadores existem?
B-Hur - A estimativa que li há três anos dizia que cerca de 30.000 pessoas já tinham sido treinadas ao longo destes anos em todo o mundo. Existem mais de setenta países que possuem pessoas treinadas neste método como professores e formadores. Na Europa, há cerca de cinco mil empresas usando o Programa desde quando foi introduzido na indústria européia, há dez anos. Hoje posso dizer que há um número bastante expressivo, de crianças a adultos, que tem utilizado o PEI nas últimas três a quatro décadas.
Como os resultados da aplicação do PEI nos indivíduos têm sido mensurados?
B-Hur - O Programa foi avaliado de diferentes maneiras. Lembro-me que bem no início, a discussão era puramente acadêmica sobre a modificabilidade cognitiva ser ou não possível. Os métodos para avaliar o Programa eram medidas psicométricas, testes de QI, por exemplo. Os resultados dos estudos iniciais mostraram um aumento do quociente de inteligência entre cinco e 15 pontos relacionado à intervenção do PEI. Recentemente, o valor destes testes foram questionados. Os estudos têm sido feitos com foco para uma avaliação da dinâmica, para a habilidade que o indivíduo tem de aprender, usando teste de dinâmica como o L.P.A.D. (Learning Propensity Assessment Device), que mostram que os resultados obtidos com o PEI provocam uma melhora na modificabilidade cognitiva. Algumas questões também sobre motivação intrínseca e realização acadêmica, têm sido também estudadas e os resultados têm sido muito poderosos. Algumas vezes, resultados inconsistentes têm sido obtidos em função da qualidade de treinamento dos professores. Achamos, no entanto, que precisamos melhorar o aspecto do treinamento dos professores do PEI. Temos que treinar os professores sobre como utilizar o PEI da melhor maneira a produzir aprendizagem mediada em sala de aula.
Quais suas impressões sobre esta sua primeira turma de futuros mediadores?
B-Hur - Quero destacar a atitude das pessoas, o desejo e a sede de aprender destas pessoas, buscando procurar soluções originais para os problemas que enfrentam como educadores, tanto de crianças como de adultos. É desta sede que me beneficiei enquanto trabalhava com eles. Cada palavra que dizia era imediatamente absorvida e as pessoas queriam mais. Quando eu fazia algum tipo de declaração não muito clara, imediatamente vinha uma pergunta. Nada ficou sem resposta. Todo mundo queria ter uma boa idéia desde a teoria e filosofia até a prática do método. Estou certo de que este treinamento vai gerar bons mediadores do PEI.
O senhor quer dizer algo especificamente para as organizações brasileiras?
B-Hur - Uma das coisas que aprendi foi que se você não fizer um bom trabalho na educação de pessoas, de ensinar as pessoas a pensar para romper com os paradigmas da aprendizagem tradicional e individualizada as organizações terão muita dificuldade em se tornar aquilo que Peter Senge chama de "learning organizations". A aprendizagem organizacional deve ser encarada como uma possibilidade, mas que exige muito investimento na modificabilidade estrutural da própria organização através da mudança do potencial de aprendizagem de seus indivíduos. Não importa a idade de quem participa do treinamento. Tenho trabalhado milhares de horas com adultos e sei que eles podem modificar os resultados desta intervenção da mesma maneira que as crianças.
Em que o método de Feuerstein se diferencia de outras interpretações sobre o que é inteligência?
B-Hur - A grande diferença do conceito de inteligência de Feuerstein do de outros, é que seu olhar se volta para o nível não manifesto de performance de inteligência. Ele olha para a propensão e o poder da pessoa para aprender, a ser inteligente. E até diz que o nível de inteligência de performance manifesto pode até enganar. E em outras palavras, se você encontra uma pessoa e ela tem uma performance pobre, a razão pela qual seu desempenho é pobre tem provavelmente pouco a ver com a sua capacidade inata e inteligência e muito mais a ver com sua experiência e com o fato de a pessoa ter a oportunidade para desenvolver seus dons naturais e habilidades natas. O conceito de inteligência de Feuerstein habilita para aprender e não o quê aprender, mas o poder de aprender - esta é a maior diferença. A intenção é avaliar não o quê se aprende, mas como se aprende. É claro que o futuro da educação depende do entendimento sobre a aprendizagem. Quanto mais se focar na aprendizagem, mais próximos estaremos de resolver os problemas da educação. Não podemos deixar as soluções dos problemas para os tradicionais e antigos paradigmas da educação, temos que olhar para novos paradigmas, e nessa busca, podemos encontrar que a aprendizagem imediata é transcendente (quantiessential) e de muito valor na educação. Os professores têm que assumir a responsabilidade pelo desenvolvimento cognitivo de seus alunos e não culpar a natureza ou algum fator externo pelas dificuldades. A educação deve ser mais reativa, assertiva e pró-ativa. Deve ser menos passiva.
As organizações, por fim, precisam entender que contam em seus quadros com pessoal , muitas vezes pobremente estimulado, "mediados" e assim não conseguem potencializar seus resultados. O PEI ajuda a modificar os processos de como se aprende e pode ser também uma intervenção nos modelos rígidos de gerenciamento do potencial humano na organizações.