Uma interpretação do método Feldenkrais

Márcia Martins de Oliveira e Mathilda Yakhni*

Aprimoramos nosso bem estar ao aprendemos a fazer uso mais global e completo de nós mesmos. Nossa inteligência, lógica e estados emocional, social e corporal dependem das oportunidades que nos damos de aprender a partir das experiências. Esta aprendizagem conduz a uma vida mais dinâmica e completa.

Usualmente aprendemos apenas o necessário para dar conta das rotinas como, por exemplo, usar as mãos o suficiente para comer, escrever. Nossas pernas para andar, correr.

A capacidade para realizar o corriqueiro com maior facilidade e destreza permanece adormecida, ficando por desenvolver.

Nosso objetivo em Educação Cinética (consulte workshop à pág. 5) é desenvolver essas capacidades por meio de seqüências de movimentos e toques.

As características individuais de movimento e postura começam na infância. Com freqüência, não nos damos conta de nossas tendências mais habituais porque o uso freqüente das mesmas combinações de movimento acabam por adormecer nossa sensibilidade.

Informática

Sentados à frente do computador, muitos não se dão conta de que ao usar o mouse, mantêm o braço bastante afastado do corpo. Esta posição cria uma carga estática, fazendo com que se carregue o peso do braço o dia inteiro. Um esforço semelhante acontece nos ombros se a cabeça é mantida à frente. Mas este esforço pode não ser notado até que se transforme em dor. Na maioria das vezes a dor pode indicar a presença de uma lesão e não apenas cansaço.

Aguçar a sensibilidade para a combinação de novos movimentos pode prevenir cansaço, dor e lesão. Aguçar a sensibilidade é explorar e reconhecer uma grande variedade de arranjos de movimentos. É encontrar novas organizações do corpo no espaço, o que permite uma postura adequada, que requer menor esforço e energia.

Testemunhos

Este foi o caso de L.C., 50, analista de sistemas, que procurou Educação Cinética porque seus ombros e pescoço estavam muito doloridos. Inicialmente o foco do trabalho foi o desenvolvimento de uma percepção mais global dos apoios na posição deitada e do esforço utilizado em movimentos de dobrar-se sobre si mesmo e rolar de um lado para o outro. Depois de algumas sessões, o foco passou a ser as sensações de L.C. ao andar e sentar.

Em seguida pesquisou-se vários movimentos possíveis das articulações do pé relacionando-os com a etapa anterior de andar e sentar. L.C. notou um melhor alinhamento e uma sensação de maior equilíbrio e menor esforço ao andar e sentar.

Na seqüência, ele relatou que, ao trabalhar no computador, seus pés estavam relaxados e apoiados no chão. Notou que o encosto de sua cadeira estava muito alto, obrigando-o a curvar-se para frente, encolhendo-se. Observou ainda que o monitor de seu computador estava muito baixo. Levantou-o um pouco e isso lhe trouxe grande alívio. Estava impressionado porque não tinha percebido isto antes e satisfeito em verificar que pequenas mudanças lhe trouxeram um alívio enorme.

De fato, nós todos sabemos que a altura e a organização dos móveis e equipamentos de trabalho são extremamente importantes. No entanto, na maior parte das vezes para fazer um uso eficiente de um bom equipamento é necessário descobrir novos usos do corpo no espaço.

G.A., 9, após uma sessão comentou: "Eu não preciso mais arrastar minha perna e está muito mais fácil correr e saltar". Sua mãe confirmou suas observações. Ele subiu as escadas pulando rapidamente, não arrastava tanto a sua perna, como tinha por hábito fazer. No final de semana, no sítio, se divertiu correndo para todo canto, dizendo: "Isto é divertido! Isto é divertido!"

Devido à problemas de nascimento, G.A. tinha dificuldade para correr e saltar. Depois de algum tempo, ele começou a interessar-se por ginástica e foi aprender ginástica rítmica.

G.N., 27, coreógrafa, descobriu que trabalhando seus movimentos de forma lenta e atenta podia reconhecer quais combinações de movimentos causavam suas dores freqüentes. Notou que era de manter seu corpo no espaço sem tanto esforço, o que diminuiu consideravelmente suas dores. Encontrou movimentos mais orgânicos e fluentes que enriqueceram seu processo criativo.

Estes exemplos mostram que para ganhar destreza e facilidade de movimentos, não podemos considerar que a aprendizagem cinética termina na primeira infância.

Novas formas de sensibilidade e combinações de movimentos surgem à todo instante. É necessário que criemos condições para reconhecê-los e incorporá-los ao nosso cotidiano.

Moshe Feldenkrais, PhD (1904-1984), físico, engenheiro, praticante de artes marciais e educador, desenvolveu o Método Feldenkrais estudando a relação direta entre movimentos do corpo e modos de pensar, sentir, aprender e agir no mundo.


* Psicólogas, especializadas no Método Feldenkrais.

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