Beatriz P. M. Mazzolini
O Programa de Enriquecimento Instrumental (PEI) é uma experiência de aprendizagem cognitiva de grande importância para quem trabalha com os processos de aprendizagem e suas dificuldades. Visa auxiliar os indivíduos em suas funções cognitivas deficientes, tais como a percepção falha, a classificação dos objetos do mundo, a análise das situações, a possibilidade de fazer comparações, a comprovação de hipóteses, entre outras.
O Programa de Enriquecimento Instrumental (PEI) é uma experiência de aprendizagem cognitiva de grande importância para quem trabalha com os processos de aprendizagem e suas dificuldades. Visa auxiliar os indivíduos em suas funções cognitivas deficientes, tais como a percepção falha, a classificação dos objetos do mundo, a análise das situações, a possibilidade de fazer comparações, a comprovação de hipóteses, entre outras.
A teoria de Winnicott ao lado do PEI pode parecer um diálogo conflitivo. Considero-o paradoxal, mais ao estilo winnicottiano. Winnicott refletiu acerca dos paradoxos, sem tentar solucioná-los intelectualmente.
Proponho não só a tolerância ao paradoxo, mas também um "encontro" entre a teoria de Winnicott e o PEI de Feuerstein. Encontro possível por um engenhoso exercício da capacidade cognitiva do pensar, do confrontar idéias. Possível também pela capacidade universal de brincar, de jogar com as idéias e palavras.
Um jogo desse tipo dá margem a questionamentos relacionados à natureza humana e pode criar um paradoxo: ajuda e não ajuda o profissional que trabalha com as dificuldades cognitivas. A experiência do profissional, ao conhecer o pensamento de Winnicott, fica enriquecida, neutra ou complicada? Vive uma nova experiência? Pode-se fazer uma sobreposição da teoria winnicottiana e a praxis de Feuerstein? Que espaço potencial pode ser criado e encontrado?
Um ponto em comum no pensamento dos dois é a crença no ser humano. Feuerstein crê no ser humano como criatura digna de dedicação, o centro do seu trabalho. Winnicott estudava a natureza humana, acreditava no potencial criativo humano, sua questão era a da existência, a noção de um ser humano que já traz em si a potencialidade do viver. Ele pensou no ser humano em termos intersubjetivos, não é nem a subjetividade de um e nem a de outro. Formulou uma teoria que considera o entre, uma teoria que dá importância à ação humana, como expressão da criatividade humana; o indivíduo tem a possibilidade de personalizar-se e conhecer-se através do outro.
De que paradoxo(s) Winnicott fala? Do envolvido na criatividade primária do bebê: o bebê cria o seio que já estava lá (início da ilusão). Fala do paradoxo envolvido no uso que o bebê dá àquilo que chamou de objeto transicional (é e não é a mãe); na capacidade do indivíduo de estar só, mesmo na presença de alguém; do terapeuta: poder aceitar que fracassa; em uma prece autobiográfica: "Oh, Deus! Possa eu estar vivo no momento de minha morte".
Winnicott construiu uma teoria do desenvolvimento emocional que amplia as áreas do viver humano em três. Além de considerar os mundos interno e externo, considera uma terceira área, intermediária de experimentação, localizada entre a subjetividade e a objetividade. Este conceito já é suficiente para mudar nossa visão sobre a estruturação do psiquismo, a clínica, a compreensão dos fenômenos culturais, a vida. Ele denominou essa área de espaço potencial: nem dentro e nem fora - entre - a área da ilusão em um primeiro momento, depois das experiências e dos fenômenos transicionais e, mais tarde, da experiência cultural (interessou-se em como a cultura e seus diferentes símbolos auxiliam o indivíduo a encontrar-se e realizar-se).
Ao aceitar a terceira área do viver, podemos considerar que a aprendizagem ocorre aí. Antes de ser capaz de aprender com o intelecto, o ser tem um longo percurso pela frente, que envolve a questão da subjetividade, o encontro com o ambiente, a constituição do self, da psique, do corpo. Tudo isso acontece muito antes de poder usar sua capacidade intelectual, tal como considerada na metodologia de Feuerstein.
A teoria de Winnicott enfatiza o ambiente em que o indivíduo se desenvolve e seu processo de maturação, bem como o conceito de self (o si mesmo, a totalidade da pessoa, o corpo e suas partes, a estrutura psíquica e suas partes, o vínculo com os objetos internos e externos etc).
O ambiente, que nos primórdios da vida é a mãe, é o responsável por seu desenvolvimento, facilitando ou não sua evolução. A mãe boa (como ele a definiu) identifica-se empaticamente com seu bebê, permite sua continuidade de ser e sua onipotência, dá a ele a ilusão de que criou o mundo, invade pouco o seu repouso e permite movimentos espontâneos; cumpre funções ambientais fundamentais ao seu processo de desenvolvimento, que são: holding, handling e apresentação do mundo.
O padrão dos fenômenos transicionais surge em torno dos quatro até os 12 meses. Winnicott observou que o primeiro objeto adotado pelo bebê tem uma importância especial, permitida pelos pais. Existem qualidades especiais na relação do bebê com o objeto transicional: o bebê tem direitos sobre ele. Os fenômenos transicionais não podem ser controlados pelo bebê como o objeto transicional; são fenômenos universais; as experiências perceptivas que incluem uma melodia, um cheiro, um móvel, um ruído; podem estar presentes em qualquer tipo de relação humana, perpetuam-se na vida do indivíduo, desdobram-se nos objetos da realidade compartilhada que, de certa forma, refletem algo do self, podendo ser reconhecido como algo próprio. Ao ser esquecido, o objeto transicional perde seu significado e os fenômenos transicionais ampliam-se por todo o campo cultural.
Segundo Winnicott, o pensar começa com uma maneira pessoal que o bebê tem para lidar com o fracasso gradual de adaptação da mãe. No início da vida, o ambiente (a mãe) deve proporcionar total adaptação às suas necessidades, senão seu estado de ser é interrompido por reações às invasões ambientais. Com o tempo, a adaptação total da mãe não é mais necessária e, gradualmente, ela se ocupa com outras coisas além de seu bebê, acontecendo a desadaptação. As experiências do bebê passam a ser catalogadas, classificadas e relacionadas ao tempo.
Winnicott afirma que o intelecto já tem uma função a cumprir, muito antes de o pensamento se transformar em uma característica, que necessita de palavras para se realizar. A função intelectual varia muito, pois o trabalho a ser realizado depende do comportamento do ambiente (mãe). Uma relação mãe-bebê conturbada pode causar uma perturbação intelectual, tendo como resultado uma deficiência mental; uma desadaptação grande da mãe no início do desenvolvimento pode levar a um crescimento intelectual hiperatrofiado, resultando na existência de um falso self (a mente domina o psico-soma ao invés de ser uma função específica dele). A inteligência (muito valorizada na sociedade moderna) oriunda do falso self agrada a pais e professores, mas encobre o verdadeiro self do indivíduo, oculto por processos reativos ao ambiente invasor, tornando o indivíduo submisso e adaptado.
Dessa forma, para Winnicott, o pensar é parte de um mecanismo pelo qual o bebê tolera não só o fracasso da adaptação da mãe às suas necessidades como também a frustração que produz tensão, dividindo o pensar em duas partes: catalogar e colocar-se como substituto materno. No desenvolvimento saudável, tudo o que é registrado é catalogado, categorizado e comparado. Isto não é pensar, mas envolve o aparelho que é utilizado para pensar. Com o tempo, a função de comparação desenvolve vida própria e possibilita fazer predições, ficando a serviço da preservação da onipotência. A elaboração da função, enriquecida por lembranças, transforma-se em imaginação criativa, sonho e brinquedo. O pensar vem a existir como aspecto da imaginação criativa; serve à onipotência e à integração. O processo de integração ("junção" dos pedaços do bebê por meio do cuidado infantil e de experiências pulsionais que unem a partir do interior) é um dos processos de desenvolvimento do ego, ao lado dos processos de personalização (sentimento de que se está dentro do próprio corpo, por meio de experiências pulsionais e experiências tranqüilas e repetidas do cuidado corporal) e realização ou adaptação à realidade (idéias do bebê enriquecidas por detalhes reais de visão, sensação, cheiro, podendo evocar, com o tempo, o que é realmente disponível).
Um outro ponto importante do pensamento de Winnicott é sua teoria do brincar. O brincar é visto por ele como uma extensão do uso dos fenômenos transicionais, pertencendo ao espaço potencial entre o eu individual e o ambiente.
Nessa teoria, o atendimento terapêutico, seja de criança, adolescente ou adulto, adquire um caráter lúdico, busca propiciar uma experiência segura, contínua e confiável no objeto, capacitando o paciente a fazer uso do objeto (e não apenas adaptar-se a ele), a desenvolver a capacidade de se preocupar pelo outro e a capacidade para ficar a sós (o que implica maturidade); amplia a relação do eu (predomínio do vínculo tranqüilo que sobrevive à descarga pulsional e consolida uma relação estável com o outro), a criatividade (oriunda do verdadeiro self, responsável pelo sentimento de que vale a pena viver), a abertura do espaço potencial; possibilita o crescimento do mundo interno e a relação com o espaço cultural; promove a integração do psicossomático, da mente com a psique, dos aspectos masculinos e femininos; restaura-se o ciclo benigno de confiança no outro e na própria capacidade de reparação. Sua metapsicologia da sessão segue um padrão que propicia ao paciente uma experiência completa, incluindo um período de hesitação, de uso e de separação dos objetos (inclusive do terapeuta). A experiência nesse tipo de pensamento é o que mais conta. Quanta coisa importante, citada em simples rabiscos, que merecem um olhar mais atento.
Essas colocações podem ser ampliadas e questionadas pelo leitor. O profissional que atende pessoas com dificuldades cognitivas deve contar com uma teoria de desenvolvimento emocional para fundamentar seu trabalho. Muitas vezes, a dificuldade do paciente em aproveitar um instrumento como o PEI, ou melhor, fazer um uso mais pessoal, coloca o profissional diante de situações, que remetem a questões do paciente relacionadas aos aspectos emocionais de seu desenvolvimento. Tudo deve ser levado em conta para compreendê-lo em suas necessidades e dificuldades: a comunicação não-verbal, gestos, silêncio e condutas inesperadas.
O profissional deve desenvolver a capacidade de se expor ao inédito, de tolerar a espera e de renunciar ao seu narcisismo intelectual (de saber o que acontece), aceitando que a descoberta seja do paciente. Pode-se dizer que o profissional transforma-se no "mediador suficientemente bom" (aproveitando metáfora de Winnicott): adapta-se às necessidades de seu paciente, promove seu sentimento de continuidade de ser, faz ajustes no setting, fornece holding, handling, para poder apresentar, em pequenas doses, o mundo, por meio dos instrumentos do PEI. Dessa forma, auxilia o paciente a fazer do estudo algo pessoal, um estudo mais humanizado, em companhia de outro, um estudo com presença humana.
O que isso tem a ver com o enriquecimento da inteligência? "Nada menos do que tudo!" (2)
Referências Bibliográficas: