"No caso da velhice, como em outros temas sociais, há muita confusão entre fatos científicos e mitos populares.(1)" Um destes mitos apontava nos idosos limitações psíquicas, baseado na crença da perda acentuada e progressiva das funções cognitivas. Esta concepção vem sendo questionada e encontramos na mídia informações que a negam por completo e apresentam receitas para bem envelhecer.
Parece importante avaliar de uma perspectiva mais abrangente o funcionamento cognitivo na velhice.
O conhecimento sobre o cérebro tem sido surpreendente. Graças às novas técnicas de exame, a ciência tem sido capaz de desvendar a atividade cerebral, embora ainda de modo fragmentado. Muitos estudos vem tentando, sem êxito, relacionar as mudanças de estrutura e função que acontecem no cérebro que envelhece (tais como diminuição de volume e peso, morte de neurônios, alterações na irrigação) com declínios no desempenho cognitivo. Excetuando-se as condições patológicas, como é o caso, por exemplo, da doença de Alzheimer ou de demências vasculares, tais tentativas não têm produzido resultados conclusivos. Ao contrário, o estágio atual do conhecimento sobre o envelhecimento normal do cérebro tem posto em evidência os mecanismos regenerativos e a plasticidade cerebral presentes até a idade avançada, e que garantiriam a preservação do funcionamento cognitivo.
Pesquisas recentes sobre a relação idade-cognição (2) procuram discriminar quais habilidades cognitivas são afetadas com o aumento da idade e em que grau, identificando tendências médias, avaliando diferenças individuais e localizando a influência de variáveis situacionais.
Como padrão geral, observam-se algumas perdas na memória secundária, na fluência verbal, na nomeação. No entanto, as investigações trazem uma conclusão mais significativa: há grande variabilidade entre os indivíduos quanto à condição intelectual. Fatores como saúde física, nível de escolaridade, atividade exercida, estimulação anterior e atual, meio social e concepções e expectativas sobre a velhice contribuem para determinar o desempenho cognitivo a ser preservado.
Constata-se que as perdas nas habilidades cognitivas usualmente atribuídas à idade podem ser evitadas, adiadas ou mesmo revertidas, quando se trata do envelhecimento normal (sem demência). A estimulação adequada e continuada permite manter níveis de desempenho bem pouco diferentes dos adultos mais jovens.
O Estudo Longitudinal de Seattle (3), que vem acompanhando adultos e idosos há quase 50 anos, revela benefícios no desempenho intelectual obtidos através de procedimentos de treino cognitivo em apenas cinco sessões, e aponta que as perdas cognitivas associadas à idade podem acontecer em função da falta de estimulação e de uso, e não de uma deterioração do aparato fisiológico subjacente.
Ameaças ao bom funcionamento cognitivo podem advir não diretamente do envelhecimento, mas em decorrência de outros fatores. Do ponto de vista emocional é fato conhecido que os idosos têm maior probabilidade de ficar expostos a acontecimentos ruins os quais geram sentimentos negativos. Eis alguns exemplos: a aposentadoria, com conseqüente mudança ou perda nas funções sociais, na sensação de produtividade, e até mesmo na receita familiar, acarretando prejuízos ao padrão de vida anterior e restrições nas oportunidades de lazer; as transformações na organização familiar, trazendo alterações nos papéis parentais e afastamentos e as questões de saúde que, além das restrições físicas, podem trazer perda de autonomia e medos relacionados à morte.
A avaliação epidemiológica mostra a depressão como o segundo transtorno mental mais freqüente. A maioria dos casos caracteriza-se como estados depressivos em resposta a condições adversas ou eventos desagradáveis. Tais estados têm repercussões negativas sobre o desempenho intelectual. Mesmo as pequenas perdas cognitivas que costumam ocorrer no idoso normal provocam sofrimento emocional, seja pelos limites que impõem ou seus reflexos na auto-estima.
As condições emocionais adversas podem ser prevenidas se as pessoas forem preparadas para o envelhecimento.
Entre os quadros de referência teóricos na Psicologia do Desenvolvimento salienta-se a proposta da Psicologia do Curso de Vida (life-span), defendida por autores como P. Baltes; suas proposições teóricas (resumidas por Neri, 1995, p.33-36)(4) nos permitem uma compreensão do envelhecimento na perspectiva de processos e não de uma fase da vida com características definidas.
Afirma-se, entre outras, que: o desenvolvimento é um processo muldirecional, isto é, não caracterizado por processos isolados de crescimento e declínio; num mesmo período as mudanças podem assumir múltiplas direções, inclusive crescimento num domínio e declínio em outro; o desenvolvimento envolve equilíbrio constante entre ganhos e perdas, havendo alterações na proporção em que tais fenômenos acontecem; há grande variabilidade entre os indivíduos, sendo os limites de cada um determinados também por condições histórico-culturais existentes no curso da vida; na velhice o potencial de desenvolvimento permanece ativo (nos limites da plasticidade individual) e os prejuízos evolutivos podem ser compensados pela ativação das capacidades de reserva do organismo.
Estas reflexões desenham e justificam uma intervenção clínica nova e necessária, que alia estimulação das funções cognitivas e cuidado aos aspectos emocionais. Tem sido extensamente divulgado o aumento atual do número de idosos no país e a perspectiva de sua participação crescente na distribuição etária da população. Este novo contingente de pessoas apresenta necessidades características do ponto de vista da prevenção e do cuidado em saúde mental, o que exige do profissional de psicologia respostas inovadoras, produzidas de acordo com esta nova configuração. Uma atuação clínica como a mencionada pode contribuir para uma velhice bem sucedida, devendo ser objeto de atenção dos profissionais de Psicologia.