Por Berenice Ferreira Leonhardt Abreu
Quando se fala em psicomotricidade, lembramos de motricidade e, conseqüentemente, do desenvolvimento motor que é assunto de criança. Será? Realmente, a criança que não teve a oportunidade de desenvolver todo o seu potencial motor está fadada a enfrentar sérias dificuldades de aprendizagem, às vezes aparecendo nas áreas da leitura e escrita, outras na matemática, dependendo de como a sua percepção visual, orientação espaço-temporal, lateralidade, esquema corporal e coordenação foram mais ou menos atingidas.
Antigamente não havia pré-escola e só começávamos a estudar a partir dos sete anos. Porém, desenvolvía-mos a motricidade em brincadeiras de rua, pulando corda, soltando pipa, subindo em árvores, jogando bolinhas de gude, andando de carrinho de rolimã. Hoje, mesmo no interior, é raro encontrar crianças que tenham o mesmo tipo de atividades.
A infância hoje é cercada de vídeos games, computadores e televisão. Quando se investiga o perfil motor das crianças, há uma oscilação. Enquanto o equilíbrio, a coordenação dinâmica geral e os movimentos simultâneos tornam-se rebaixados, a coordenação e a velocidade de mãos aumentam. Parece que se esqueceram do corpo e só se fixaram em suas mãos. Normalmente as queixas nos consultórios não são da ordem da motricidade, mas da aprendizagem. São crianças desatentas, que não conseguem um bom desempenho escolar, têm o comportamento fracassos, estando sua auto-estima rebaixada. Na avaliação, aparecem as dificuldades motoras. Por quê?
Nós humanos esquecemos que embora o nosso cérebro funcione como um computador, sendo o input (entrada) todas as percepções e sensações levadas por nosso corpo, como se fossem o teclado e o mouse; a elaboração, o planejamento, a confrontação com o que já temos e estamos recebendo feita pelo nosso cérebro, que funciona como o winchester de muitos megabytes; o output (saída) é realizado por nossa motricidade. Todas as respostas são motoras. A fala é uma micromotricidade, para a qual necessitamos das cordas vocais, língua, musculaturas da face e dos lábios, além do encadeamento do pensamento. A execução de qualquer elabora-ção é motora. O andar, a escrita, a leitura, o vestir-se, o comer, o beber, tudo é motor... A pessoa que falha no input, terá uma percepção distorcida da realidade. A exploração de qualquer situação tende a ser impulsiva. Os conceitos e instrumentos verbais receptivos serão deficientes; provavelmente terá dificuldade em trabalhar com os conceitos espaciais e temporais; falhará na coleta de dados e a capacidade de considerar mais de uma fonte de informação será deficiente. Geralmente este indivíduo não foi suficientemente estimulado durante o seu desenvolvimento motor - dos zero aos seis anos, quando se dá toda a aprendizagem da recepção para a realização de tarefas ou resolução de problemas. Também falhará na elaboração, porque se não houve uma coleta de dados correta, como será possível definir um problema de forma precisa? Criando-se uma inabilidade de seleção de dados relevantes, uma inabilidade para assumir comportamento comparativo, um campo mental estreito e limitado, uso restrito para pensamento hipotético-inferencial, falta de planejamento e apreensão da realidade episódica. Assim, durante o período da segunda infância (dos sete aos 10 anos) e na adolescência (dos 11 aos 18 anos), quando são desenvolvidas todas as operações concretas e na segunda fase, as operações formais, ele continuará falhando, porque todas as funções de pensamento têm como base o desenvolvimento perceptivo-motor e o indivíduo continua a não ser trabalhado na área motora.
No output provavelmente apresentará uma modalidade de comunicação egocêntrica, com respostas bloqueadas ou por tentativa e erro, expressão de dados e transporte visual deficientes, e comportamento impulsivo e exibicionista. Falar sobre inteligência é muito difícil, pois o conceito ampliou-se. Não temos mais somente a visão quantitativa - o quanto de resultado o indivíduo alcança num teste, dentro de um menor espaço de tempo, temos a visão qualitativa, a criatividade, a flexibilidade, o controle emocional, o saber se comunicar de maneira mais expressiva. Fala-se também em múltiplas inteligências: verbal, lógico-matemática, espacial, musical, naturalista, pictórica, cinestésico-corporal, inter e intrapessoal, etc.. Estar atento ao que acontece ao nosso redor é uma maneira de entender o que se passa e selecionar o que é relevante para respondermos aos estímulos de maneira mais criativa e inteligente. Para isso é necessário ter a atenção focalizada na percepção visual, na percepção auditiva, na cinestésica (todas as sensações corporais), na percepção do nosso esquema corporal e ter uma atenção interiorizada (a mais importante), sabendo distinguir e analisar o que está se passando conosco em nível consciente e inconsciente; por que estamos com raiva e qual a melhor maneira de lidar com ela, por que estamos alegres, o que nos motiva e nos impulsiona a seguir adiante. O desenvolvimento dessa inteligência mais plástica pode ser realizada com um trabalho psicomotor. Como?
De acordo com os neurologistas, toda vez que nos deparamos com uma tarefa para a qual não temos referencial, sendo a nossa primeira experiência, usamos uma área maior do nosso cérebro para poder realizá-la, abrimos mais "janelas", fazemos mais sinapses. Na segunda vez, a área utilizada já será menor e a execução, mais precisa, porque a confrontação com a experiência anterior será possível. Como vimos, o input e o output são motores ou fazem parte do nosso desenvolvimento psicomotor. Trabalhar o corpo e as funções motoras é um fator importante para o desenvolvimento das funções psiconeurológicas e para ampliação e flexibilização do campo mental. A sessão de psicomotricidade lida com o movimento, propiciando a ampliação das percepções em geral, trabalhando a interiorização e propondo tarefas que mexem com o desequilíbrio e o equilíbrio - tão relevantes para a construção da inteligência qualitativa. Desde o momento em que a instrução verbal da tarefa é dada, o indivíduo tem que ouvir (percepção auditiva), decodificar o que foi dito, fazer a imagem mental do que decodificou, colocar em execução e ainda comparar (ter o feedback), entre o que recebeu de informação e o que está realizando, se está ficando ou não de acordo com aquilo que planejou. Mexendo com todo o processo que faz parte de nossa maneira de agir e funcionar, também pondo em jogo a área emocional do poder e querer ouvir o outro, de explorar adequadamente as informações, de não deixar que a ansiedade e a impulsividade tomem conta e atrapa-lhem a realização do processo e que a saída se apresente do melhor modo possível, isto é, que realmente fiquemos contentes com a resposta apresentada, já que ela representa nossa inteligência, potencial. Com a globalização, que tornou o mundo cada vez mais competitivo, procura-se por profissionais que sejam proativos, flexíveis, que saibam liderar e planejar a sua ação e a de seus colaboradores. Essas qualidades são aprendidas, não nascemos com elas.
O que fazer se nossos modelos foram autoritários e nos ensinaram a repetir, memorizar, e não a criar, pensar, nos colocar no lugar do outro? Ficamos sem um referencial, sem saber o que fazer, procuramos cursos teóricos, em que a prática fica distante da realidade e não aprendemos a abandonar velhos hábitos, para que outros possam ser colocados no lugar. O trabalho da psicomotricidade na busca de uma aprendizagem mais prática, que nos leva a tomar contato conosco, a aprender a descobrir o nosso potencial e a resgatar o que a escola nos assinalou como incapacidade ou incompetência, é a possibilidade do referencial novo, não externo ou imposto como modelo, mas a busca do nosso próprio referencial, interno, que vamos descobrindo à medida em que construímos uma nova maneira de refletir sobre os sucessos ou fracassos. Na psicomotricidade, o erro tem o mesmo peso que o acerto, porque é através do primeiro que aprendemos a reparar e crescemos; o segundo mantém a nossa auto-estima. Para Sara Pain, educadora e psicopedagoga argentina, o único conhecimento válido é o que foi processado pelo sujeito, o que consta como experiência pessoal, o que se adscreve ao total de sua memória, é deste conhecimento que o sujeito pode dispor quando precisa. É deste conhecimento que a psicomotricidade nos fala. A vivência de um processo cujo objeto de estudo são os indivíduos, sendo os exercícios apenas o meio de atingi-lo, conscientizando-o que o saber está nele. Ele é o único que tem as ferramentas para propiciar a mudança, e que a teoria deveria ser a conclusão da prática e não o contrário.
Berenice Ferreira Leonhardt Abreu
Docente do Instituto Pieron
anbeot@uol.com.br