Quando falamos em relaxamento, logo se pensa em técnicas para ficar mais relaxados, para se tranquilizar. É comum, ao sugerir um relaxamento a um cliente no consultório, ouvir: "Não, hoje eu não preciso, não estou nervoso". No entanto, relaxamento não é isso, ou não é apenas isso.
O corpo faz parte da totalidade da pessoa e é indissociável dela. Não somos apenas uma cabeça que pensa, um coração que bate ou um corpo que dói ou sente prazer. Tudo se interliga, e não podemos dizer que aquilo que pensamos fica só na cabeça e não afeta o corpo, ou que aquilo que sofremos em nosso corpo não interfere no que sentimos ou pensamos sobre nós mesmos. Corpo e psique fazem parte da mesma totalidade. Como disse Jung: "... a diferença que fazemos entre psique e corpo é artificial. Isso é feito em nome de uma melhor compreensão. Na realidade, não há nada além de um corpo vivo. Este é o fato: a psique é tanto um corpo vivo, quando o corpo é uma psique viva: é simplesmente a mesma coisa." (C.G. Jung - seminário sobre Assim Falou Zaratustra). Ambos formam uma unidade e não uma dualidade.
No entanto, muitas vezes, o corpo está desligado desse todo. Trabalhar com ele com atenção, cuidado e respeito, dando-lhe espaço, ouvindo o que ele tem a dizer, ajuda a reintegrá-lo nessa totalidade maior da qual ele faz parte.
O relaxamento, pelo aquecimento que possibilita, seria, pois uma via de abertura para podermos nos "ouvir" mais. E ouvir não apenas o que nossas preocupações, ou nossos pensamentos cotidianos nos dizem, mas aquilo que está velado e entranhado em nosso corpo, e que o toque e a soltura das tensões permitem emergir do "mar" do inconsciente. Como Reich já apontou, nossos conflitos latentes ficam "sepultados" nas contrações musculares.
Podemos, portanto, dizer que o trabalho com o corpo é de muita ajuda no processo de ampliação de consciência, já que o corpo é o repectáculo de conteúdos inconscientes.
Falar de relaxamento, ou do trabalho com o corpo, envolve, pois, muito mais do que simplesmente "relaxar". É claro que o "relaxar" também faz parte do processo. Através do trabalho com o corpo conseguimos soltar tensões que nos incomodam, ampliamos nossa respiração, os processos internos (digestivos, por exemplo) se regularizam e o fluxo de energia pelo corpo é acentuado. Com isso, ocorrem sensações de bem-estar, de tranquilização, de harmonia interna. Conseguimos estar mais presentes em nosso próprio corpo e mais centrados em nós mesmos.
Manter esse eixo, através da presença no corpo, é uma maneira de nos resguardar para não sermos tomados pela ansiedade, pelas preocupações e temores que estão tão presentes atualmente em nosso cotidiano, e que facilmente nos contaminam. Através do relaxamento podemos nos manter mais equilibrados para lidar com todos os fatores estressantes que fazem parte de nosso mundo hoje.
Retomada de eixo, contato consigo mesmo, consciência corporal, abertura para novas possibilidades - tudo isso pode ser associado ao trabalho com o corpo.
Como dizia o "mestre" Sandor (Pethö Sándor, criador da Calatonia e de inúmeros outros trabalhos com toques sutis), através desse trabalho entramos em contato com fontes de energia que normalmente não são acessíveis por causa de nossos bloqueios.
O relaxamento propõe um resgate do corpo como fazendo parte de nossa totalidade, abrindo desse modo um novo canal de acesso ao mundo interno, de revitalização e centração. É, pois, um instrumento valioso que temos em mãos.